sábado, 6 de agosto de 2011

Meros detalhes

A minha história não se faz
de acontecimentos,
mas de luzes.
Aquelas que se acendem
caso uma loucura se guie.

A minha história não se faz
de números,
mas de letras romanas.
Que estavam na sua boca ao acordar.

A minha história se faz
de gases
para ferimento.
As tais encontradas
em qualquer pronto-socorro.

Se fez de ataques,
de expulsão,
de exclusão.
De ões sem aumentativos.
Sem sentimentos.
Apenas comentários.

(Monique Ivelise)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Animal sem estimação


Quantas vezes parei no meio da estrada,
esperando carona do desconhecido.
Quantas vezes não dancei até o final,
esperando a sorte de ser acompanhada.
Quantas vezes, não é meu amigo.

Sujei todas as paredes de amarelo,
esperando um raio de sol.
Molhei todo o chão de água,
esperando a maresia.
Quebrei todo o teto,
esperando sentir o cheiro de café novo.

Tornei-me um animal,
onde as lembranças foram embora.
Tornei-me um animal,
onde todas as ações tipicamente humanas
foram extirpadas.
Tornei-me animal,
para alimentar dos restos dos sonhos.
Tornei-me animal,
que desistiu da espera.
Animal sem estimação.

Como não sou estimada,
procurei novas histórias,
novos passados.
Como não sou,
as vezes tornaram completas.
Como não sou,
estou presa às vistas
do público a passeio,
que admira a nova atração.
Como não sou,
virei gente.

(Monique Ivelise)

domingo, 31 de julho de 2011

Palavras

Minhas palavras, cegas.
Meu pastor, morto.
Minha fé, perdida.
Meus sonhos, acordados.

O que me resta?
A noite calada,
sussurrando
uma vida que poderia
ser a minha.
No entanto, não é
e não será.

O que me resta?
Sabotar
todas as trajetórias.
Sabotar
os tais sonhos.
E passar a arranhá-los.
Sufocá-los
Esmagá-los
Fazê-los de comida,
e assim deliciá-los.

O que me resta?
Aplaudir a
triste desaventura.
Aplaudir a voz
da minha cabeça,
que clama por
saudade.

(Monique Ivelise)

sábado, 30 de julho de 2011

Esperas


Espero por uma palavra,
sua, diferentes das outras.
Espero, por um olhar,
diferente do meu.
Espero pelo novo,
um novo de você.

Esperei pelo ferimento,
pelo ataque.
Esperei pelo sussurro
de tua parte.
Esperei pelo desconexo.
Pelo desengano, por encantamento.
Esperei, esperei.

Esperava por atos,
não concretizados.
Esperava por beijos,
mal dados.
Esperava por sorrisos,
por posturas.
Esperava.

As tais esperas
ficaram esperando.
Os sonhos crescendo,
sonhando em um dia,
não mais ser espera,
no coração da menina,
que espera ser feliz,
sem mais alguma espera.

(Monique Ivelise)

terça-feira, 26 de julho de 2011

Cliente da modéstia


Que se foda essa porra.
Oh digníssimo espaço pervertido,
Es tu cliente da modéstia,
que saboreia teus incríveis bombons.

Que vá, com prazer, à merda,
Tu que é vestido da
minha pura seda javanesa.
Tu, que faz parte de projetos sociais.
Tu, que sai nas fotos oficiais da ONU.
Tu, mestre da unha do pé de Baudelaire.

Tu compra inocências,
Tu que pinta a cara de verde e amarelo,
e faz discursos brancos.
Que se foda.

Sei que minha linguagem te provoca,
mas essa é única que irá sangrearte.
Meu chulo dialeto,
Minha desgarrada posição,
Meu olhar mulato,
minhas joias de plástico.
São essas responsáveis pelos
ataques que virá a sofrer.
Permanecerás ai?
Esperando pelo golpe final,
da analfabeta aqui.
Decida você!

(Monique Ivelise)



segunda-feira, 25 de julho de 2011

Dia do escritor

Hoje é dia de loucos, que vagueiam pelas palavras. As vezes sem saber onde estão pisando, ou que estão pensando.

Não pense que com isso, estão em lugar superior, pois a torre de marfim já foi demolida há muito tempo, pois não estão. Estão sabe lá onde!

É válido comemorar o nosso dia (sei que é ousadia me considerar com tal).

Então senhores e senhoras aproveitem seu dia de loucura!!

Não ser louco de pedra, quem sabe ser louco da palavra.

Parabéns!!!

sábado, 23 de julho de 2011

A rotina da pretinha


Ai vem a pretinha,
com seu cabelo pixaim alisado.
Andando pelas ruas,
fingindo de ser gente.
Esperando ser reconhecida
pela vida.

Lá vai ela,
com sua sensualidade
de mulher com pele queimada.
Lá vai ela,
com a sina da mesma pele.

Esperam por ela,
pratos sujos, casas pra arrumar,
um samba mal feito.
Mesmo assim, lá vai.

A pretinha, assim reconhecida,
vai abrir as pernas
em um lugar qualquer.
Ao seu lado,
as baratas, as moscas.

O seu final:
Não se encontra nas novelas,
nem nas vitrines.
Foi esquecido pela mesma.
Tornou-se tema dessas palavras vazias,
que mostram, mas não transformam.
Tornou-se poesia nas mãos
de uma, também,
qualquer.
Também de pele queimada,
de cabelo pixaim alisado.
Que também abriu as pernas
para um mundo esquecido.
Tornou-se a puta das palavras.
Decidiu ganhar dinheiro e atenção
com as tormentas dos outros.

Então se foi ela:
sozinha,
esperando ser alguém.

(Monique Ivelise)

Enlouqueça



Aquela que se faz no íntimo,
sensual e sexual.
Que se faz de fingimentos,
até de palavras.
De toque,
de suspiros.
De poesias sujas,
de desejos.

É hora de ser louco!
Ser fingidor.
Ser gauche.
Ser amante.
Ser assassino.
Não ser.

É hora de sujar as paisagens.
Sem respeito.
Sem pudor.
Sem cor.

É hora de viajar.
Sem explicações.
Sem destinos.
Sem.

É não é!
Então:
enlouqueça!
Ou algo melhor para fazer?

(Monique Ivelise)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Teatro grego

Ladies and gentlemans:
Tenho o prazer de apresentar
uma trama que vai surpreende-los:

Eis que inicia o primeiro ato:
A pobre donzela ao vil amante:

Não se engane com os meus olhos,
pois os mesmos só se fazem de inocente.

Não deixe se seduzir por minha boca,
ela te amaldiçoa,
te engana,
te mata.

Não acaricie minhas mãos,
elas não esquecem,
elas, sim, machucam.

Faça de mim,
um fingidora,
que se tornou poetisa.

Faça de mim,
a viagem,
da delirante história.

Finalmente,
faça-me de assassina.
Que trucida tuas palavras.

Oh pobre senhor!
Encantaste com minha formosura.
Agora espere as consequência.
Bem que te avisei!
O teatro já foi iniciado.
Bom espetáculo!

(Monique Ivelise)