sexta-feira, 8 de junho de 2012

Vereda adocicada

As veredas já não são suficientes para propagar as ondas de calor,
de uma pequeno ser que vai por caminhos reversos.
Não é mais possível viver na árida corrente de cortes,
de viver em meios de tantos sim's.
Faço-me de  vida, em contramão ao passado das programações.
Faço-me de herói, ainda acentuado; aquele que ainda não passou por mudanças.
Faço-me de fantasma,  feito de algodão rosa; 
que ainda inventa novos sustos,
afim de contrariar todos os contras.

Sempre serei aquela vítima,
pela tarde.
Virei pelo chão seco, com sede e fome 
                                                   fome de caminhada mais eficazes
                                                                                         fezes por símbolos ultrapassados.
As veredas já não são suficientes, para garantir o sorriso de uma besta mulher,
que como eu, faz painéis pesados,
dobraduras de bolas de sabão,
sobre a chuva
.
As veredas já são suficientes para cobrir a primavera,
com as flores de verdade 
e fazê-las perfumadas.
Já não são suficientes em escolher os grãos de feijão durante o almoço;
em fugir por pontes quebradas.

Faço-me-ei em cravo,
em orvalho,
em pé de maracujá;
e criar em veredas.

Mesmo assim, já não é suficiente querer as bolas de sabão
revertidas em veredas.
Pois bolas de sabão não tem gosto de canela.

(Monique Ivelise)

terça-feira, 5 de junho de 2012

São máquinas, não as mesmas; mas ainda máquinas - Drummond/ Camões

A máquina do mundo
(Carlos Drummond de Andrade)

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vindo dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina  do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensando se carpia

Abriu-se majestosa e circunspecta
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiros tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou, 
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo."

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre 
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência jamais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima - esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, mais mais quele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,

seguia vagarosa, de mãos pensas

domingo, 3 de junho de 2012

Identidades apostadas


Já não faço parte daquele modelo,
que estipulou para minha figura.
Não sou alegre, para te fazer rir.
Não sou triste, para te dizer conselhos.
Faço sim outros longas, com outros atores;
com outras paisagens.

Continuo em preto em branco,
em função de aparentar mais coerente,
para tuas imagens.
Continuo em preto e branco,
em desejo da plateia que já se foi.
Continuo branco em preto,
para que seja eu, a aposta das noites.

Sou assim, fui assim e não continuarei assim.
O que transpassar são os meus olhos contornados
e seu fundo amargo.
O que resta são as vírgulas,
que perpetuarão para um doce sempre.
O que vai,
será ao teu lado,
a longa visão de algo ou alguém,
que ainda dá passos dançando.

(Monique Ivelise)

BILL WITHERS JUST THE TWO OF US

The Impressions Its All Right

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Subtração



Faça o que quiser,
deite por por aí,
fale incompreensões,
não aceite o mínimo como oferta,
nem o máximo como herança.


Evite confissões,
sem teu algoz,
pare nas linhas verdes
e cruze as vermelhas..


Não espere pelos outros, 
uma forma amável de lidar.
Não ame os seus próximos,
Evite os sãos, 
aqueles que realmente sabem o que fazem.
Ou pelo menos, 
dizem que o fazem.
Não adicione, nem multiplique 
as variações da minha fala,
de detentora do saber.

A incrível poetiza,
reconhecida pelos becos sujos,
licenciada pela academia de poetas mornos
e aprovada por seu discurso comum,
de figuras comuns e gente comum.

Não faça de louco,
pois não sabem as opções de seu ato.
Nem queira as sombras lunares,
sem saber as pedras,
que veem junto.

As pedras já não fazem os mesmos estrondes,
já não quebram as vidraças da mesma maneira.
Foram contraídas em pó .
Em pó, serão jogadas nas águas 
do teu esgoto,
da tua rua,
dentro da tua sala de visitas.

Então:
Saia daqui 
e faça algo melhor, 
que leitura de poemas.



Não se faça de intelectual.
Realmente, faça algo melhor.



(Monique Ivelise)


domingo, 27 de maio de 2012

" com meu defeitos
insuportáveis.
Sofro,
choro,
silencio.
Sou Dama das Camélias Encarnadas.
Sou uma ferida
bem vestida
e maquiada."

(Fernanda Young)



quarta-feira, 23 de maio de 2012


"Hoje você vai ter que fingir que preto é a tua cor favorita
...
Pólvora não é tempero,
então cuidado com que você põe na boca..."

Desmistifique suas posições, não se faça de hipócrita, que finge não ver... que finge não enxergar...
    





terça-feira, 22 de maio de 2012

Emicida e Rael da Rima em "Num é só ver" no Estúdio Showlivre

Uma só nota

Me falas todos os dias, que vou ficar sozinha na vida,
serei sozinha aos 30 e aos 50.
Não agradarei meus entes falecidos.
Não agradarei se não a mim mesmo.

Não programarei todas as minhas querências duplas,
em função de um nada, que vive em particular.
Serei uma só sem vez,
de brigar,
de chorar,
de amar,
de recusar,
tudo que se faz sem par.

Me falas, que não sou possível de rir de comédias
e chorar por dramas atuais.
Que só sei escrever em diários, o que queria falar
de meus inimigos.
E fazer atribulações somente nos ares irreais.

É, não vou dizer que falas apenas bromas,
mas também não sou exatamente o que desenhas,
se não uma bailarina sem chão.
Procurando uma nota para movimentar,
e quem sabe fazer uma sinfonia.

(Monique Ivelise)