domingo, 13 de março de 2011

A própria semelhança de Deus

Auto-retrato

Sou das ruas.
Uma ladra de sortes.
Uma encantadora de serpentes,
que é mordida pelo desejo falido.

Uma prostituta de almas negadas;
Talvez, uma ambulante,
que vende a maldade de um olhar.
Uma viciada em danças desprezadas.

Uma abnegada, sem registro,
muito menos identidade.

Sou das ruas sujas,
contemporânea e periférica.
Sou do encanto descansado.
Sou o descabido com nome.
Sou?
Se sou, uma proposta:
O desvendamento!
Se sou, uma fantasia.
Se sou, um beijo.
Se sou, uma morte.
Se sou, uma brincadeira.

Mas se não sou,
Não me digas,
pois pra que se importar?
Sei estou há muito de descobrir.
O que resta: as ruas!

(Monique Ivelise)

Delírio comunitário

Por que não admitir?
Por que faz isso?
Não sabes que só tenho
um pequeno coração,
que sonha e desiste.
Faz da escrita a única fuga.
Ou melhor, a principal.

Então, quando me encontrares:
Olha-me, cala-me e beija-me.
Como se fôssemos desconhecidos;
nunca antes vistos.

Por que falar?
Se podemos poetizar?
Ou delirar?

(Monique Ivelise)

sábado, 12 de março de 2011

Era um poeta...


Cartola, no moinho do mundo

Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita em sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.

Eu fiz o ninho.
Te ensinei o bom caminho.
Mas quando a mulher não tem brio,
é malhar em ferro frio.

Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o samba de Cartola; Na Floresta (música de Sílvio Caldas).

Esse Cartola! Desta vez, está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei Sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha pela renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de
Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

Em Tempos Idos, o Divino Cartola, como o qualificou Lúcio Rangel, faz o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com a sua participação eficiente:

Com a mesma roupagem
que saiu daqui
exibiu-se para a Duquesa de Kent
no Itamaraty.

Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar o seu samba Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockowski não lhe fez nenhum favor; reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes da nossa população. Coisa que contagiou a ilustre Duquesa.

* * *

Mas então fiquei parado, ouvindo aa filosofia céptica do Mestre Cartola, na voz de Silvio Caldas. Já não me lembrava o compromisso que tinha que cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer essas coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Dona Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo, Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O Mundo é um moinho…” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 11 de março de 2011

Hora da loucura poética!!

Insegurança

Posso tentar esquecer
as palavras dos outros
Posso sonhar com as perguntas,
em meio de respostas sem fim.

O que faço?
Digo-lhe:
Permaneço fiel,
ao teu sentimento amistoso.

Pois fantasias,
morrem a cada alvorecer.
Não que com ela,
falecer de encantos.
E por fim, continuar ao seu lado

(Monique Ivelise)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Transparências...

Era malícia, virou horror...

Receita de 5 minutos

Misture um pouco de saudade
e as palavras vazias.
Acrescente a malícia,
dissolvida com pimenta.
Leve, ao fogo brando
por alguns minutos.

Enquanto isso,
veja um pouco de tv,
beba um copo de água,
salte de paraquedas
e salve o mundo.

Voltando, polvilhe loucura
retire do fogo.
Sirva ainda quente e
pense pra tanta besteira junta.

Queridos, culinária também pode ser complicado,
e resguardar toda filosofia de um continente.

(Monique Uvelise)